Paciente no centro muda o ponto de partida da inovação em saúde

Com tecnologias cada vez mais disponíveis, debate do segundo painel do CIMES destaca a importância de mapear necessidades e fluxos do cuidado antes de definir as soluções

Nunca houve tanta tecnologia disponível para transformar a saúde. Inteligência artificial, equipamentos conectados, plataformas digitais e grandes bases de dados ampliam continuamente as possibilidades de diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos pacientes. Mas, diante dessa abundância de soluções, surge uma pergunta fundamental: a inovação deve começar pela tecnologia disponível ou pelo problema que precisa ser resolvido?

A questão esteve no centro do segundo painel do 8º CIMES – Congresso de Inovação em Materiais e Equipamentos para Saúde, realizado no dia 16 de setembro, na FIESP, em São Paulo. Com o tema “Paciente no Centro da Inovação: Como conectar indústria e cuidados inteligentes?”, o debate foi moderado por Marco Bego, diretor-executivo do InRad e do InovaHC, e reuniu Ana Estela Haddad, professora titular da FOUSP, e Franco Pallamolla, presidente da Lifemed e vice-presidente de Relações Institucionais da ABIMO.

Logo na abertura, Bego chamou a atenção para uma mudança provocada pelo próprio avanço tecnológico. O paciente não pode ser visto como um elemento estático dentro do sistema de saúde: ele percorre uma jornada, que começa antes de um atendimento e continua depois dele. Nesse cenário, a tecnologia precisa acompanhar seus diferentes momentos e se integrar cada vez mais ao cuidado.

Para Franco Pallamolla, essa mudança também altera a forma como a indústria deve pensar a inovação. Em vez de concentrar o desenvolvimento apenas nas possibilidades oferecidas pela tecnologia, é preciso considerar quais resultados realmente representam valor para quem está sendo cuidado.

“A inovação começa com a necessidade não atendida e termina em resultados percebidos na vida real”, afirmou. Entre esses resultados, Pallamolla citou segurança, recuperação, redução de danos evitáveis, conforto, participação da família, continuidade do cuidado, informações compreensíveis, acesso e equidade.

Essa inversão do ponto de partida ganhou força na fala de Ana Estela Haddad. Para ela, um dos desafios da transformação digital é justamente evitar que a tecnologia seja escolhida antes que o processo e o problema estejam devidamente compreendidos. “A primeira questão é a gente mudar o ponto de partida para o desenvolvimento da tecnologia. Às vezes, a gente traz a tecnologia antes de trazer o mapeamento do processo e do problema. E aí a gente vai ficar batendo cabeça”, afirmou.

A discussão reforçou, assim, uma mudança essencial de perspectiva: colocar o paciente no centro da inovação é deixar de perguntar primeiro “qual tecnologia temos?” para perguntar “qual problema precisamos solucionar?”.

Isso exige olhar para a jornada do paciente como um todo: entender como ele circula pelos serviços, quais são os gargalos do atendimento, quais informações precisam acompanhá-lo e como os diferentes momentos do cuidado (presenciais ou digitais) se conectam. Somente a partir desse mapeamento a tecnologia pode ser direcionada para responder às necessidades identificadas.

Essa lógica também orienta iniciativas do SUS. Ana Estela apresentou a experiência do Inova SUS Digital, laboratório de inovação criado para prospectar empresas e projetos e conhecer as soluções existentes no mercado brasileiro. A etapa seguinte parte das necessidades e prioridades identificadas pelas áreas do Ministério da Saúde para estruturar demandas específicas e buscar tecnologias capazes de atendê-las.

É, como resumiu durante o painel, um “esforço de desenhar o problema para que essa nova tecnologia atenda esse problema”.

Tecnologia nova também exige processos novos

Partir do problema não significa apenas escolher melhor uma solução. Em muitos casos, a própria incorporação da tecnologia exige que hospitais e outros serviços de saúde revejam a maneira como trabalham.

Para entender melhor esse conceito, vale resgatar um acontecimento recente. No início do segundo semestre deste ano, o Ministério da Saúde inaugurou a primeira Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Inteligente do SUS, instalada no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre (RS), dando início à Rede Nacional de UTIs Inteligentes. A iniciativa utiliza tecnologia desenvolvida pela Lifemed.

A solução integra equipamentos médicos e reúne, em tempo real, informações que antes poderiam estar dispersas em diferentes dispositivos. A tecnologia centraliza sinais vitais, parâmetros dos equipamentos e curvas fisiológicas de até 64 leitos simultaneamente e transmite esses dados tanto para as equipes assistenciais quanto para o prontuário eletrônico do paciente. Com isso, os profissionais passam a ter uma visão integrada das informações clínicas para apoiar a tomada de decisão.

Esse foi um dos exemplos trazidos por Pallamolla ao debate. Segundo o executivo, experiências internacionais com hospitais inteligentes mostram que a incorporação de novas tecnologias não acontece de forma isolada: ela vem acompanhada da necessidade de rever processos assistenciais e os próprios fluxos percorridos pelos pacientes dentro das instituições.

“A IA não entra sozinha, ela entra forçando revisão do processo, do fluxo daquele paciente dentro da instituição”, explicou. Para ele, à medida que essas tecnologias avançarem, os processos dos serviços de saúde necessariamente precisarão ser revistos.

Vale lembrar que o desenvolvimento da tecnologia utilizada no projeto das UTIs Inteligentes do SUS também exemplifica a articulação entre indústria e pesquisa debatida ao longo do CIMES. A plataforma foi criada pela Lifemed em parceria com o NUTES/UEPB, uma das Unidades Embrapii, aproximando a demanda da indústria da competência científica e tecnológica de uma Instituição de Ciência e Tecnologia (ICT).

O caso ajuda a materializar um dos conceitos discutidos no painel: a tecnologia não é uma camada simplesmente adicionada ao cuidado. Ao conectar equipamentos, organizar informações e permitir novas formas de acompanhamento dos pacientes, ela também modifica fluxos de trabalho, a relação entre profissionais e a própria organização da assistência.

Nesse cenário, hospitais deixam gradativamente de atuar apenas como compradores de equipamentos e passam a participar também do desenvolvimento e da evolução das soluções. O produto, por sua vez, deixa de ser necessariamente estático: sistemas baseados em inteligência artificial podem aprender e evoluir continuamente.

Se os equipamentos não conversam, a jornada continua fragmentada

A experiência das UTIs inteligentes também ajuda a compreender outro tema que ganhou destaque no painel: a interoperabilidade. Colocar o paciente no centro exige que equipamentos, sistemas e plataformas consigam trocar informações, evitando que os dados permaneçam isolados justamente quando o cuidado precisa ser integrado.

Para Pallamolla, a indústria precisa considerar essa necessidade desde o início do desenvolvimento. A informação gerada por um equipamento não pode ficar restrita àquele dispositivo; precisa estar preparada para interagir com outros sistemas que participam do cuidado.

Ana Estela ampliou essa discussão ao relacionar a interoperabilidade dos equipamentos à infraestrutura digital da saúde. Segundo ela, não basta conectar bases de dados: é preciso pensar em como os próprios equipamentos vão conversar entre si e como suas informações serão integradas ao conjunto de dados que acompanha a jornada do paciente.

A construção dessa infraestrutura também envolve aproximar os modelos dos setores público e privado. No SUS, a Rede Nacional de Dados em Saúde segue uma arquitetura descentralizada. O desafio é encontrar mecanismos que permitam a interoperabilidade com diferentes estruturas utilizadas fora do sistema público, criando um ecossistema mais amplo de informações em saúde.

Dados precisam circular, mas também precisam ser protegidos

Quanto maior a integração, maior também a necessidade de estabelecer regras claras para o uso das informações. Para Ana Estela, o modelo de interoperabilidade está diretamente relacionado ao modelo de governança de dados: é preciso definir quem pode acessar as informações, em quais circunstâncias e com qual finalidade.

“O que deve nortear o acesso aos dados é o interesse maior do paciente”, afirmou. Na assistência, isso significa permitir o uso das informações quando necessário para o cuidado; na dimensão populacional, os dados também podem cumprir funções de vigilância em saúde. Fora dos contextos autorizados, porém, precisam permanecer protegidos.

A mesma preocupação vale para a inteligência artificial. Para que essas ferramentas possam ser utilizadas em escala, o painel apontou a necessidade de uma regulamentação capaz de acompanhar sua evolução, garantir credibilidade às soluções e proteger os dados dos pacientes. Pallamolla também destacou o papel da Anvisa nesse processo e a importância de mecanismos que aproximem o regulador das tecnologias ainda em desenvolvimento.

Da abundância tecnológica à inovação que gera valor

A discussão mostrou que o Brasil já começa a construir parte da infraestrutura necessária para essa transformação. Ana Estela citou o avanço da Rede Nacional de Dados em Saúde e do Meu SUS Digital, que já havia alcançado 70 milhões de downloads, além da interoperabilidade de prontuários em diferentes pontos do sistema. Para ela, essa base é condição necessária para avançar posteriormente no uso de inteligência artificial em maior escala.

Ao mesmo tempo, Pallamolla destacou a capacidade da indústria nacional de responder às demandas do país, mas ressaltou a necessidade de direcionamento das prioridades e de condições que deem segurança aos investimentos de longo prazo em desenvolvimento tecnológico.

Ao encerrar o painel, Marco Bego sintetizou parte do desafio ao apontar a necessidade de “orquestração desse processo todo” para reduzir riscos e permitir que o país avance, gradualmente, em sua transformação digital.

Publicado em 17/09/2026

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