8º CIMES mostra que inovação em saúde depende de conexões para chegar ao paciente

Encontro reuniu indústria, governo, regulação, pesquisa, hospitais e fomento para discutir como e para quem desenvolver novas soluções

Como e para quem desenvolver soluções inovadoras em saúde? A pergunta que orientou o 8º CIMES – Congresso de Inovação em Materiais e Equipamentos para Saúde, realizado no dia 16 de setembro, na FIESP, em São Paulo, ganhou diferentes respostas ao longo de uma programação que reuniu representantes da indústria, do poder público, da regulação, da pesquisa, dos serviços de saúde e do fomento à inovação.

Mas uma ideia atravessou praticamente todas as discussões: tecnologia, sozinha, não transforma a saúde. Para que uma inovação saia dos centros de pesquisa e das empresas, seja incorporada aos sistemas de saúde e efetivamente melhore a vida das pessoas, é necessário conectar competências, compartilhar riscos, criar condições regulatórias adequadas e, sobretudo, entender quais problemas precisam ser resolvidos e para quem as soluções estão sendo desenvolvidas.

Essa perspectiva apareceu já na abertura do encontro. Para Jamir Dagir Jr., presidente da ABIMO, mesmo as discussões mais técnicas sobre inovação não podem perder de vista quem está na outra ponta do processo.

“Por trás de cada linha de IA médica, cada liga metálica ou design de prótese, existe uma história humana, um paciente esperando, uma família torcendo por uma resposta rápida. Muitas vezes, na correria dos laboratórios, planilhas e complexidades regulatórias, esquecemos que o produto final da inovação não é o dispositivo médico, é a vida de alguém”, disse.

Também na abertura, Márcio Bósio, diretor Institucional da ABIMO e representante do DECOMSAÚDE/FIESP, destacou que “inovar não é uma opção, é condição para salvar vidas e fortalecer o país”. Na visão de Bósio, isso exige amadurecer um ecossistema no qual indústria, governo, pesquisa e hospitais trabalhem juntos e de forma alinhada.

Parceira estratégica do evento, a Embrapii trouxe para o encontro a perspectiva de como transformar conhecimento em projetos concretos. Igor Nazareth, diretor de Inovação e Relações Institucionais, lembrou que a parceria com a ABIMO já ultrapassou a marca de 100 projetos desenvolvidos por empresas associadas junto às Unidades Embrapii. “Eu garanto que temos competência para apoiar o desenvolvimento e aportar recursos para qualquer demanda advinda do setor de saúde”, disse, ao destacar que as quase 100 Unidades Embrapii abrangem uma ampla gama de competências para apoiar a indústria na transformação de projetos em realidade.

Poder público presente

A cerimônia de abertura também contou com representantes do poder público, que reforçaram a necessidade de aproximação e diálogo com a indústria para conectar as políticas de inovação às demandas da saúde brasileira.

Eduardo Barbosa, diretor do Departamento de Economia e Investimentos em Saúde do Ministério da Saúde, ressaltou o papel dessa articulação para identificar desafios e ampliar a capacidade de resposta do setor. “Esse espaço do CIMES nos ajuda a aumentar a nossa capacidade de identificação dos desafios, mas também a fortalecer a inovação para que a indústria gere mais empregos de qualidade e mais tecnologias que contribuam com o SUS”, disse.

Já Patrícia Francisco Branco, da Gerência de Tecnologia de Materiais de Uso em Saúde (GEMAT) da Anvisa, reforçou que a regulação sanitária deve fazer parte do processo de desenvolvimento tecnológico. “Inovar não significa apenas desenvolver uma nova tecnologia, mas uma solução mais segura, com evidências adequadas, que possa ser incorporada à prática assistencial e chegar até o paciente de forma responsável”, afirmou.

Outros dois representantes do poder público trouxeram para a discussão questões igualmente essenciais: o poder de compra e de indução do Estado e a sustentabilidade do sistema de saúde.

Fernando Figueira, diretor do Departamento de Atenção Hospitalar, Domiciliar e de Urgência (DAHU) do Ministério da Saúde, apontou para um cenário no qual o SUS amplia seu papel como agente capaz de estimular a inovação. “Acredito que muito em breve o SUS vai ser norteador e indutor de inovação. A gente está perto de eliminar a máxima de que ‘no SUS não tem’ e inverter essa frase para ‘no SUS já tem’”, disse.

Darcio Guedes, diretor do Fundo Nacional de Saúde do Ministério da Saúde, destacou, por sua vez, que inovação, acesso e sustentabilidade precisam avançar conjuntamente. “Não tem como pensar em sustentabilidade se a gente não inovar. Todos temos um objetivo comum: garantir acesso e cuidado de qualidade”, pontuou.

A abertura contou ainda com uma participação especial do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que enviou um vídeo gravado especialmente para o público do 8º CIMES. Na mensagem, o ministro relacionou o fortalecimento da capacidade produtiva nacional à soberania e à segurança sanitária, lembrando as lições deixadas pela pandemia. “Saúde, política industrial e tecnologia têm que caminhar juntas. Fortalecer a saúde é questão de soberania, de segurança sanitária e de garantia da saúde aos brasileiros”, declarou na gravação.

Da tecnologia ao paciente

As questões levantadas na abertura ganharam profundidade nos três painéis do 8º CIMES.

O primeiro colocou no centro do debate as principais preocupações que devem acompanhar a inovação, destacando interoperabilidade de dados, cibersegurança, privacidade e telessaúde como elementos centrais dessa transformação, aliados a evidências, governança, monitoramento contínuo e supervisão humana (confira AQUI a cobertura completa).

O segundo trouxe uma perspectiva prática e complementar, reunindo as visões do SUS e da indústria sobre a necessidade de manter o paciente no centro da inovação. A interoperabilidade voltou ao debate, assim como a importância de primeiro mapear os problemas para, então, desenvolver ou buscar tecnologias capazes de solucioná-los (leia AQUI a matéria sobre o segundo painel).

Já o terceiro, que encerrou a programação, enfatizou que transformar conhecimento científico em produto disponível no mercado exige a atuação integrada de indústria, pesquisadores, fomento e regulação desde as etapas iniciais dos projetos (confira a cobertura completa AQUI).

“Nenhum de nós inova sozinho. O futuro da saúde não se constrói com isolamento, mas sim com cooperação”, disse Márcio Bósio, diretor Institucional da ABIMO, no encerramento das apresentações.

Quando a conexão começa a virar projeto

Se os painéis discutiram os caminhos necessários para fortalecer a inovação, uma segunda frente do 8º CIMES tratou de colocar essa articulação em prática.

A Rodada de Inovação Tecnológica colocou frente a frente 10 Unidades Embrapii (ICTs) e representantes de indústrias brasileiras de dispositivos médicos associadas à ABIMO. Antes mesmo do início do evento, mais de 50 reuniões já estavam agendadas para discutir demandas, desafios tecnológicos e oportunidades de desenvolvimento.

Vindas de diferentes regiões do país, as Unidades reuniram competências em áreas como biofotônica, software e hardware, inteligência artificial, ciência de dados, processos biotecnológicos, automação e soluções industriais.

A proposta foi fazer com que demandas reais das empresas encontrassem conhecimento científico, capacidade tecnológica e mecanismos de fomento capazes de transformá-las em projetos de PD&I. Dessa forma, as conexões construídas durante o CIMES podem continuar muito além do evento e resultar em novas tecnologias, maior competitividade para a indústria brasileira e soluções capazes de ampliar o acesso à saúde.

Ao final do congresso, a pergunta que abriu o 8º CIMES não recebeu uma resposta única, e talvez essa seja uma de suas principais conclusões. Desenvolver inovação em saúde exige começar pelas necessidades reais do paciente, construir soluções seguras e baseadas em evidências e conectar quem pesquisa, quem produz, quem regula, quem financia e quem utiliza a tecnologia.

Mais do que discutir o futuro da saúde, o encontro mostrou que esse futuro precisa ser construído em conjunto e que o Brasil reúne conhecimento, indústria e instituições capazes de fazer essa inovação acontecer.

Publicado em 17/09/2026

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