Acreditação na odontologia avança com foco na jornada do paciente e na qualidade do atendimento

Durante seminário da ABIMO e da campanha Sorrir Muda Tudo, Gilvane Lolato apresentou mudanças na metodologia da ONA e destacou os desafios para ampliar a cultura de segurança nos serviços odontológicos brasileiros

A qualidade de um serviço de saúde não pode ser medida apenas pela existência de protocolos, equipamentos adequados ou certificações. É preciso avaliar como esses elementos se traduzem em segurança, acolhimento e resultados concretos para o paciente. Essa mudança de perspectiva está no centro de uma transformação conduzida pela Organização Nacional de Acreditação (ONA), que vem revisando seus padrões para aproximá-los das necessidades reais da população.

O assunto foi apresentado por Gilvane Lolato, representante da ONA, durante a palestra “Acreditação e certificações para uma odontologia mais segura”, realizada em 30 de outubro, no auditório da FIESP, em São Paulo (SP).

A apresentação integrou o seminário promovido pela ABIMO e pela campanha Sorrir Muda Tudo, com apoio do DECOMSAUDE/FIESP, como parte da ação “Aprender para cuidar, ensinar para transformar”, organizada em comemoração ao Dia Nacional do Cirurgião-Dentista.

Ao longo da palestra, Gilvane apresentou os avanços do Sistema Brasileiro de Acreditação, os desafios enfrentados pelas organizações de saúde e as mudanças que buscam tornar a avaliação da qualidade mais próxima da realidade dos serviços e das pessoas atendidas.

O paciente passa a ocupar o centro da avaliação

Fundada em 1999, a ONA é responsável pela gestão e revisão dos padrões nacionais de qualidade utilizados na acreditação de organizações de saúde. O sistema conta com instituições acreditadoras e avaliadores que verificam, presencialmente, o cumprimento dos requisitos estabelecidos.

Nos últimos anos, a organização promoveu uma ampla revisão de sua metodologia, envolvendo especialistas, avaliadores, instituições acreditadoras e, pela primeira vez nesse processo, usuários do Sistema Único de Saúde (SUS).

A participação dos pacientes trouxe uma perspectiva diferente daquela tradicionalmente adotada nas avaliações técnicas. “Uma coisa é revisar de acordo com o conhecimento técnico, outra é olhar sob a perspectiva do usuário e ouvir a percepção dele”, destacou Gilvane.

Segundo a palestrante, essa escuta permitiu identificar oportunidades de melhoria que ultrapassam os manuais e alcançam as próprias regras do sistema de acreditação.

Como resultado, a ONA lançou uma nova versão de seu manual de padrões para serviços de saúde e estabeleceu um método de avaliação padronizado, buscando reduzir diferenças na aplicação dos critérios pelas instituições acreditadoras. Uma das principais novidades é a valorização da jornada do paciente, desde a conscientização sobre a importância da prevenção até a busca por atendimento e a continuidade do cuidado.

A nova abordagem também exige atenção à escuta ativa e qualificada, considerando que as necessidades de saúde não se limitam à queixa apresentada durante uma consulta.

Prevenção e saúde integrativa ganham espaço

Para Gilvane, a revisão dos padrões representa uma mudança na maneira de compreender a responsabilidade das organizações de saúde.

Mais do que atender pacientes que procuram assistência, os serviços devem contribuir para que a população reconheça a importância dos hábitos saudáveis, da prevenção e do acompanhamento contínuo.

A proposta se aproxima do conceito de saúde integrativa, ao considerar o indivíduo em sua totalidade e reconhecer a influência de fatores sociais e comportamentais sobre os resultados do cuidado. Nesse ponto, a palestrante chamou a atenção para a experiência da rede pública, que já desenvolve iniciativas de promoção da saúde e prevenção em diferentes territórios.

“O privado ainda não tem essa visão que o SUS tem. É uma mudança realmente de paradigma em pensar em saúde como um todo. Todos somos responsáveis por isso”, afirmou.

A odontologia também está inserida nessa transformação. Embora os serviços exclusivamente odontológicos ainda tenham participação reduzida entre as organizações acreditadas, a especialidade integra os padrões relacionados à atenção primária à saúde.

A atualização da metodologia amplia a visibilidade da odontologia dentro do sistema e reforça a importância de integrar a assistência odontológica às demais dimensões do cuidado.

Acreditação ainda enfrenta barreiras no Brasil

Apesar dos avanços, a expansão da acreditação permanece como um desafio. Durante a apresentação, Gilvane mostrou que o Brasil conta com aproximadamente 1.900 organizações acreditadas pela ONA, número ainda pequeno diante da dimensão territorial e da estrutura do sistema nacional de saúde.

A distribuição também é desigual. Segundo os dados apresentados, cerca de 60% das organizações acreditadas estão concentradas na região Sudeste, enquanto a região Norte reúne apenas 2,8%.

Para compreender as dificuldades de crescimento, a ONA realizou uma pesquisa em parceria com a Fundação Dom Cabral, envolvendo gestores de organizações de saúde e os resultados apontaram benefícios associados à acreditação. Entre os respondentes de organizações acreditadas, 97,5% afirmaram que o processo proporcionou melhorias, enquanto 62,4% destacaram avanços na estruturação e na maturidade organizacional.

A pesquisa também identificou maior engajamento assistencial nas instituições acreditadas, com índice de 94%, diante de 70% nas não acreditadas.

Entretanto, os obstáculos continuam significativos. Entre os principais estão a cultura organizacional pouco orientada à segurança do paciente, a resistência das equipes, a falta de integração dos processos, as limitações financeiras e as dificuldades de gestão de pessoas.

Na avaliação de Gilvane, superar essas barreiras exige envolvimento das lideranças e compreensão de que a qualidade não pode depender exclusivamente de exigências externas.

A segurança precisa aparecer na prática

Ao abordar a aplicação dos padrões de acreditação na odontologia, Gilvane destacou que as normas devem servir como referência para a organização dos serviços, mas precisam ser interpretadas de acordo com as características e os riscos de cada realidade assistencial.

Isso inclui avaliar a disponibilidade e o uso adequado de equipamentos, insumos e dispositivos médicos, além de estabelecer processos seguros para os procedimentos realizados.

A palestrante relembrou experiências de avaliação em clínicas odontológicas públicas, nas quais foi necessário ampliar a percepção das equipes sobre os riscos associados a procedimentos cirúrgicos e a importância de protocolos específicos de segurança.

A reflexão dialoga com as discussões atuais sobre a RDC Anvisa nº 1002/2025, que estabelece requisitos sanitários para os serviços odontológicos e reforça a necessidade de gerenciamento de riscos e segurança do paciente. Para Gilvane, entretanto, nenhum padrão produz resultados se permanecer restrito à documentação. “Não é pegar um padrão, escrever um documento e dizer que atendeu. É mudar a prática. Não é só mostrar um papel ao avaliador”, enfatizou.

A mensagem reforçou que a acreditação deve funcionar como instrumento de melhoria contínua, apoiando a capacitação das equipes, a atualização profissional e o desenvolvimento de processos capazes de oferecer atendimento mais seguro e qualificado.

Para a indústria odontológica, os profissionais e as instituições de saúde, o avanço desses padrões representa uma oportunidade de fortalecer a qualidade assistencial e valorizar práticas que coloquem o paciente no centro das decisões.

A prevenção também ganhou espaço na Avenida Paulista

A proposta de aproximar a saúde das necessidades da população não ficou restrita aos debates do seminário. Enquanto especialistas e profissionais acompanhavam as palestras no auditório da FIESP, a ABIMO e a campanha Sorrir Muda Tudo também promoviam uma atividade gratuita de orientação sobre saúde bucal na Avenida Paulista.

Das 10h às 15h, profissionais da odontologia estiveram em frente à FIESP oferecendo avaliações odontológicas, esclarecendo dúvidas e compartilhando orientações sobre prevenção e cuidados com a saúde bucal.

Publicado em 04/11/2026

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