Liderança na odontologia vai além do consultório e transforma vidas

Em palestra, Francis Tsurumaki destacou o protagonismo do cirurgião-dentista na gestão da saúde, na redução das desigualdades e na construção de soluções que beneficiam toda a sociedade

O que define um líder na odontologia? A experiência clínica, a especialização, a posição ocupada em uma instituição ou a capacidade de mobilizar pessoas para promover mudanças? Para Francis Tsurumaki, gerente de Saúde Bucal da Organização Social de Saúde (OSS) CEJAM, a resposta está muito mais relacionada à maneira como o profissional atua do que ao cargo que ocupa.

“A liderança não é um cargo, é uma postura”, afirmou durante a palestra “O cirurgião-dentista como liderança na sociedade”, apresentada no dia 30 de outubro, no auditório da FIESP, em São Paulo (SP).

A apresentação integrou o seminário promovido pela ABIMO e pela campanha Sorrir Muda Tudo, com apoio do Decomsaude/FIESP, como parte da iniciativa “Aprender para cuidar, ensinar para transformar”, em comemoração ao Dia Nacional do Cirurgião-Dentista.

Ao longo da exposição, Francis mostrou como o protagonismo dos profissionais da odontologia pode ultrapassar os limites do atendimento clínico e contribuir para a melhoria dos indicadores de saúde, o fortalecimento das políticas públicas e a transformação da realidade das comunidades.

O cirurgião-dentista como agente de transformação

Segundo Francis, a formação técnica continua sendo fundamental, mas já não é suficiente para atender às demandas da sociedade. Hoje, o cirurgião-dentista também precisa desenvolver competências relacionadas à gestão, comunicação, educação, articulação institucional e liderança de equipes.

Isso significa assumir responsabilidades que vão além da prevenção e do tratamento das doenças bucais, participando da construção de políticas públicas, da promoção da saúde e da integração entre diferentes setores.

Nesse contexto, a capacidade de ouvir, reconhecer as necessidades das pessoas e agir de maneira colaborativa torna-se tão importante quanto o domínio dos procedimentos clínicos.

O palestrante também destacou a necessidade de valorizar e compartilhar as conquistas da profissão. Muitas vezes, os profissionais promovem mudanças significativas na vida de seus pacientes e comunidades, mas deixam de registrar e comunicar esses resultados. Para ele, demonstrar o impacto da odontologia é uma forma de fortalecer o reconhecimento social da profissão e incentivar novas iniciativas.

O SUS como escola de liderança

Uma das principais reflexões da palestra foi o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) no desenvolvimento de lideranças na odontologia. Com base na experiência do CEJAM, organização que atua na gestão de serviços de saúde em diferentes níveis de atenção, Francis apresentou exemplos de como o cirurgião-dentista da rede pública exerce funções estratégicas no território.

Além do atendimento clínico, esse profissional organiza fluxos, coordena equipes, acompanha indicadores, participa de programas de saúde nas escolas, identifica vulnerabilidades e articula ações com diferentes especialidades e serviços. “O cirurgião-dentista do SUS é uma liderança territorial”, destacou.

Na avaliação de Francis, a experiência da saúde pública demonstra que a qualidade assistencial depende de processos estruturados, equipes integradas e uma visão ampliada das necessidades dos pacientes.

Ele também ressaltou que unidades públicas acreditadas têm alcançado elevados níveis de maturidade na gestão dos processos e na segurança do paciente, mostrando que a busca pela excelência não está restrita ao setor privado. Acreditação, inclusive, também foi tema de palestra no seminário de 30 de outubro. Clique AQUI para ler o texto completo.

O verdadeiro resultado está na vida das pessoas

Outro ponto central da apresentação foi a necessidade de avaliar o impacto da odontologia para além da quantidade de procedimentos realizados. Francis explicou que a redução dos índices de cárie em determinada comunidade, por exemplo, pode produzir benefícios que ultrapassam a saúde bucal. Entre eles estão a diminuição da evasão escolar, do absenteísmo no trabalho, do uso de antibióticos, das internações e dos custos para o sistema de saúde.

Da mesma forma, o diagnóstico precoce do câncer bucal pode salvar vidas, enquanto a atuação odontológica nos cuidados paliativos contribui para preservar a dignidade dos pacientes.

A mensagem é que os indicadores assistenciais precisam ser acompanhados de uma avaliação sobre os resultados efetivos na saúde e na qualidade de vida da população.

Para ilustrar essa perspectiva, o palestrante compartilhou experiências de atendimento a pacientes em condições de grande vulnerabilidade. Em um dos casos, a equipe precisou mobilizar diferentes profissionais, serviços de emergência e a própria comunidade para garantir atendimento odontológico a uma paciente acamada, com obesidade e dificuldades de locomoção.

Em outro, adaptações simples permitiram oferecer melhores condições de higiene bucal a uma pessoa com deficiência física que enfrentava barreiras de acessibilidade em sua residência.

Os exemplos demonstraram que a liderança também se manifesta na capacidade de identificar obstáculos, articular recursos e encontrar soluções adequadas à realidade de cada paciente.

Liderar é integrar pessoas e processos

Francis também abordou a relação entre gestão, qualidade e resultados assistenciais. Segundo ele, quando uma equipe não alcança os resultados esperados, é necessário analisar tanto os processos quanto as condições oferecidas aos profissionais.

De um lado, estão protocolos, fluxos, rotinas, monitoramento e notificações. De outro, aspectos como comunicação efetiva, inteligência emocional, segurança psicológica, educação continuada e gestão de conflitos.

A combinação desses elementos permite construir ambientes de trabalho mais organizados, colaborativos e preparados para oferecer assistência de qualidade. “O líder é quem integra, não quem centraliza”, reforçou.

Essa visão também se conecta à saúde integrativa e à necessidade de compreender o paciente em seu contexto familiar, social e territorial. Para isso, o cirurgião-dentista deve manter diálogo com escolas, hospitais, gestores públicos, instituições de ensino e representantes da indústria odontológica.

A integração entre esses atores, segundo Francis, é essencial para ampliar o acesso aos serviços, fortalecer a prevenção e promover avanços sustentáveis na saúde bucal.

A reflexão complementou os debates sobre inovação, capacitação, atualização profissional e cultura de segurança apresentados durante o seminário. Ao encerrar a palestra, Francis deixou uma mensagem sobre o papel social da profissão e o significado de uma liderança verdadeiramente transformadora. “O maior legado de um cirurgião-dentista não é o número de procedimentos e consultas realizadas, mas o número de vidas que ele ajudou a transformar.”

Da reflexão à prática na Avenida Paulista

O compromisso com a transformação social também esteve presente fora do auditório. Enquanto os profissionais participavam das palestras na FIESP, a campanha Sorrir Muda Tudo promovia uma ação gratuita de conscientização sobre saúde bucal na Avenida Paulista.

Das 10h às 15h, profissionais da odontologia estiveram em frente à FIESP realizando avaliações odontológicas, oferecendo orientações preventivas e esclarecendo dúvidas da população.

Aberta a todos, a iniciativa aproximou os cuidados odontológicos do público e demonstrou, na prática, uma das principais mensagens do seminário: o conhecimento e a atuação integrada dos profissionais podem gerar benefícios que vão muito além do consultório.

Publicado em 04/11/2026

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