Odontologia 4.0 coloca segurança do paciente e saúde integrativa em evidência

Em palestra promovida pela ABIMO e pela campanha Sorrir Muda Tudo, Rosely Cordon destacou que a transformação da odontologia exige mais do que inovação tecnológica

A odontologia nunca teve tantos recursos tecnológicos à disposição. Inteligência artificial, impressão 3D, escaneamento digital e sistemas de gestão estão transformando a rotina dos consultórios e ampliando as possibilidades de diagnóstico e tratamento. Mas será que a evolução tecnológica está sendo acompanhada por uma transformação igualmente importante na cultura de segurança do paciente?

Essa foi uma das principais reflexões propostas por Rosely Cordon, coordenadora científica da campanha Sorrir Muda Tudo, durante a palestra “Odontologia 4.0: cultura de segurança e saúde integrativa”, que abriu a programação do seminário realizado pela ABIMO e pela campanha Sorrir Muda Tudo, com apoio do DECOMSAUDE/FIESP, no dia 30 de outubro, em São Paulo (SP).

O encontro integrou a ação “Aprender para cuidar, ensinar para transformar”, criada em comemoração ao Dia Nacional do Cirurgião-Dentista, e reuniu profissionais para uma manhã de capacitação, atualização profissional e debates sobre os desafios da odontologia contemporânea.

Da prática artesanal à Odontologia 4.0

Para contextualizar as mudanças, Rosely apresentou uma retrospectiva da profissão, desde os procedimentos essencialmente manuais até a incorporação de equipamentos elétricos, radiografias, prontuários eletrônicos e tecnologias digitais.

Segundo a especialista, a indústria odontológica teve papel decisivo nessa evolução, ao desenvolver equipamentos e soluções que permitiram ampliar a qualidade, a precisão e a padronização dos procedimentos.

Agora, com a chegada da Odontologia 4.0, o desafio é ainda maior. Além de incorporar novas ferramentas, os serviços precisam garantir que equipamentos, informações, profissionais e processos funcionem de maneira integrada.

Entretanto, Rosely alertou que a tecnologia, por si só, não garante qualidade assistencial. É necessário compreender o paciente em sua totalidade, considerando não apenas suas condições bucais, mas também aspectos físicos, emocionais, sociais e individuais. Essa visão está no centro do conceito de saúde integrativa, que reconhece a relação entre a saúde bucal e o bem-estar geral.

Segurança não pode ser apenas um checklist

Um dos momentos importantes da apresentação foi a reflexão sobre a necessidade de equilibrar padronização e acolhimento. “Segurança sem humanização é protocolo, é checklist. Humanização sem segurança é risco que todos corremos. A norma existe para que as duas aconteçam juntas”, afirmou Rosely.

A especialista defendeu que a segurança do paciente precisa deixar de ser encarada como uma obrigação documental e passar a fazer parte da cultura dos serviços odontológicos.

Nesse contexto, abordou a RDC Anvisa nº 1002/2025, destacando a importância da regulamentação como base para o aprimoramento dos processos, da gestão de riscos e das práticas assistenciais. Para Rosely, o cumprimento das exigências sanitárias deve representar o ponto de partida para a melhoria contínua, e não o limite das iniciativas de qualidade. A nova resolução da Agência foi tema de palestra no seminário. Clique AQUI para acessar a cobertura.

A mudança também exige uma nova postura diante de incidentes e falhas. Em vez de concentrar a atenção exclusivamente na responsabilidade individual, é preciso avaliar os processos e identificar as condições que permitiram a ocorrência do problema. “A pergunta deixa de ser ‘de quem é o erro?’ e passa a ser ‘como o sistema permitiu o erro?’”, provocou.

Essa perspectiva reforça a importância de protocolos bem estruturados, comunicação efetiva, capacitação das equipes, rastreabilidade de materiais e equipamentos e identificação preventiva de riscos.

Uma cultura que o paciente sente

Para ilustrar como a segurança pode ser incorporada à rotina de uma organização, Rosely compartilhou uma experiência de imersão em práticas de gestão e qualidade inspiradas no modelo Disney.

Entre os aprendizados, destacou a valorização de processos padronizados, a atenção aos detalhes e a autonomia das equipes para interromper atividades quando identificam situações de risco.

A comparação serviu para demonstrar que, embora os pacientes nem sempre conheçam os procedimentos internos de um consultório, percebem seus efeitos na qualidade do atendimento. “Ninguém vê a segurança, mas todo mundo sente”, resumiu.

Na avaliação da especialista, essa cultura depende de lideranças comprometidas, profissionais preparados e processos que funcionem de maneira integrada. Por isso, o cirurgião-dentista precisa assumir também seu papel de gestor da qualidade e da segurança, envolvendo toda a equipe na construção de um ambiente assistencial mais seguro.

Ao encerrar a apresentação, Rosely reforçou a conexão entre prevenção, humanização, tecnologia e responsabilidade profissional. “A boca é a porta de entrada, e a segurança é o primeiro ato do cuidado integrativo de qualquer pessoa”, concluiu.

Conhecimento dentro e fora do auditório

Enquanto os profissionais participavam do seminário na FIESP, a campanha Sorrir Muda Tudo também levava conhecimento diretamente à população na Avenida Paulista.

Das 10h às 15h, profissionais da odontologia estiveram em frente à FIESP realizando uma ação gratuita e aberta ao público, com avaliações odontológicas, orientações sobre saúde bucal e esclarecimento de dúvidas.

As duas iniciativas traduziram o propósito da campanha “Aprender para cuidar, ensinar para transformar”: promover a atualização dos profissionais e ampliar o acesso da sociedade à informação, à prevenção e aos cuidados com a saúde bucal.

Publicado em 04/11/2026

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