Déficit comercial de dispositivos médicos chega a US$ 8,73 bilhões até setembro e reforça desafios da indústria nacional

Análise da ABIMO, com base em dados do ComexStat/MDIC, aponta crescimento de 14% nas importações e retração de 8,57% nas exportações em 2026


A balança comercial brasileira de dispositivos médicos encerrou os nove primeiros meses de 2026 com déficit de US$ 8,73 bilhões, em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas, medidas protecionistas e mudanças nas cadeias globais de suprimentos.

Entre janeiro e setembro, as exportações somaram US$ 790,18 milhões, retração de 8,57% em relação a 2025, enquanto as importações alcançaram US$ 9,52 bilhões, alta de 14%. Isso significa que, para cada dólar exportado, aproximadamente US$ 12 foram destinados à importação de produtos do setor.

Os números integram o levantamento mensal da ABIMO, elaborado com dados do ComexStat, plataforma oficial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Embora o avanço das importações também possa refletir a demanda por tecnologias, insumos e componentes, o aumento do déficit reforça a necessidade de fortalecer a produção e a competitividade nacional. Nesse contexto, ganham relevância politicas industriais a exemplo da Nova Indústria Brasil (NIB), que tem metas até 2033 e uma seção voltada ao Complexo Econômico-Industrial da Saúde.

“Os resultados mostram desafios, mas também oportunidades. Precisamos fortalecer a cadeia produtiva, a inovação e a competitividade, sem perder de vista a inserção internacional. Em um comércio global em transformação, diversificar mercados e ampliar a presença dos produtos brasileiros no exterior são estratégias cada vez mais importantes”, avalia Larissa Gomes, gerente de Projetos e Marketing da ABIMO.

Exportações: América Latina apresenta resultados positivos

Em setembro, as exportações totalizaram US$ 95,89 milhões, queda de 6,53% frente ao mesmo mês de 2025, interrompendo a trajetória de aproximação entre os resultados dos dois anos observada desde maio.

Odontologia foi a única vertical com crescimento nas vendas externas (+11,74%), alcançando US$ 13,46 milhões. As demais registraram retração: Reabilitação (-10,64%), Médico-hospitalar (-4,71%) e Laboratório (-1,53%).

Os Estados Unidos permaneceram como principal destino, com US$ 22,64 milhões, seguidos por Argentina (US$ 9,02 milhões), México (US$ 7,67 milhões), Chile (US$ 6,77 milhões) e Paraguai (US$ 4,55 milhões). Juntos, os cinco países representaram 52,85% das exportações do mês.

Apesar da liderança, as compras norte-americanas recuaram 7,78% em relação a agosto, em meio à intensificação das medidas protecionistas dos Estados Unidos. “Não podemos garantir que a retração esteja diretamente atrelada às tarifas comerciais, pois esse resultado pode se justificar inclusive por antecipação de compras, sazonalidade ou diferenças no calendário de contratos e embarques”, alerta Larissa.

Em contrapartida, os outros quatro principais destinos ampliaram suas compras: Chile (+50,01%), México (+13,93%), Paraguai (+6,29%) e Argentina (+6,19%). O movimento sinaliza oportunidades de diversificação comercial, especialmente na América Latina, favorecida pela proximidade geográfica e pelos mecanismos de integração econômica.

Entre os produtos mais exportados destacaram-se sacos, bolsas e cartuchos de polímeros de etileno, artigos ortopédicos, materiais para suturas cirúrgicas, caixas plásticas e válvulas cardíacas.

Acordos comerciais ampliam oportunidades

A diversificação de mercados ganha importância diante das transformações do comércio internacional. Desde setembro, uma lista de dispositivos médicos brasileiros passou a contar com tarifa de importação zerada no Egito, em decorrência do Acordo de Livre Comércio entre Mercosul e Egito, ampliando oportunidades no continente africano.

Além disso, o avanço da implementação do Acordo Mercosul-União Europeia também merece atenção e seus impactos devem ser avaliados conforme a classificação fiscal dos produtos e os cronogramas de redução tarifária previstos.

Se, por um lado, a integração pode facilitar o acesso a novos mercados, estimular parcerias tecnológicas e investimentos, por outro, pode ampliar a concorrência de fabricantes europeus no Brasil, especialmente em segmentos de maior complexidade tecnológica.

Importações desaceleram em setembro

Apesar da alta acumulada no ano, as importações apresentaram desaceleração em setembro, totalizando US$ 1,09 bilhão, queda de 2,36% frente aos US$ 1,12 bilhão registrados no mesmo mês de 2025. Em agosto, as compras haviam alcançado US$ 1,28 bilhão, crescimento anual de 43,66%.

A mudança pode refletir oscilações cambiais, custos logísticos, antecipação de compras ou reorganização de fornecedores, embora os dados não permitam identificar uma causa específica.

Entre as verticais, Odontologia apresentou o movimento mais expressivo: as importações praticamente dobraram, passando de US$ 21,15 milhões para US$ 42,62 milhões. O segmento também foi o único com crescimento nas exportações.

Reabilitação registrou alta de 15,58% nas importações; laboratório, vertical com maior participação financeira, recuou 1,59%; e médico-hospitalar apresentou queda de 11,01%.

Os Estados Unidos lideraram as origens das importações, com US$ 170,79 milhões, seguidos por Alemanha (US$ 150,91 milhões), China (US$ 150,76 milhões), Suíça (US$ 86,47 milhões) e Porto Rico (US$ 68,74 milhões). Juntos, os cinco responderam por 57,64% do total.

Entre os produtos, os imunológicos apresentados em doses ou acondicionados para venda a retalho concentraram aproximadamente 34% das importações de setembro. Na sequência aparecem reagentes de diagnóstico e laboratório, instrumentos médicos e cirúrgicos, sondas, cateteres e cânulas, além de vacinas e produtos semelhantes.

Essa concentração evidencia que as oscilações nas importações podem ser fortemente influenciadas por determinadas categorias de alto valor, sem representar necessariamente um movimento uniforme em todo o setor.

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Publicado em 15/10/2026

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