NR-1 impõe mudança estrutural na gestão das empresas e exige ação imediata da indústria

Webinar da ABIMO alerta para custos invisíveis dos riscos psicossociais, apresenta caminhos práticos para transformar exigência regulatória em ganho de produtividade e reforça capacitação com curso exclusivo sobre a NR-1

A atualização da NR-1, que passa a exigir a gestão dos riscos psicossociais nas empresas a partir de 26 de maio, representa uma mudança estrutural na forma como as organizações lidam com fatores como sobrecarga, clima organizacional, liderança e saúde mental no trabalho. O tema foi o centro do webinar promovido pela ABIMO na terça-feira, 17 de março, que reuniu especialistas para discutir impactos diretos na indústria de dispositivos médicos e orientar executivos sobre como agir diante do novo cenário.

Na abertura, o diretor institucional da ABIMO, Márcio Bósio, destacou que a norma vai além de uma exigência técnica. “Não estamos falando apenas de uma mudança de abordagem. A NR-1 traz efeitos práticos, operacionais e financeiros para as empresas”, afirmou.

Custos invisíveis já impactam o setor

Durante o encontro, o engenheiro de segurança do trabalho João Campos chamou atenção para um ponto crítico: os custos relacionados aos riscos psicossociais já existem, mesmo nas empresas que ainda não os mensuram.

Segundo ele, a indústria de dispositivos médicos, marcada por alto nível de exigência regulatória, rastreabilidade e qualidade, é especialmente sensível a esses fatores. “Os riscos psicossociais afetam diretamente a estabilidade operacional, a consistência da gestão e a sustentabilidade do negócio”, explicou.

Para ilustrar, Campos apresentou uma simulação baseada em uma empresa com 100 colaboradores. Nesse cenário, os custos anuais associados a absenteísmo, presenteísmo, turnover, ações trabalhistas e aumento do FAP podem chegar a aproximadamente R$ 464 mil por ano, valor que, na maioria dos casos, não aparece de forma explícita na gestão financeira.

Entre os principais impactos estão:

• Absenteísmo: cerca de R$ 60 mil/ano

• Presenteísmo: mais de R$ 150 mil/ano

• Turnover: aproximadamente R$ 144 mil/ano

• Ações trabalhistas e FAP elevado: mais de R$ 100 mil combinados

O especialista também destacou que empresas de menor porte, embora tenham perdas absolutas menores, sofrem impactos proporcionalmente mais graves. Em uma empresa com 50 colaboradores, por exemplo, o prejuízo estimado pode ultrapassar R$ 247 mil por ano.

Além disso, organizações menores tendem a depender mais de apoio externo para estruturar a implementação, enquanto empresas maiores possuem maior capacidade interna de integração.

“Não fazer nada não elimina o custo. É a forma mais cara de lidar com o problema”, reforçou.

Duas formas de responder à NR-1

O webinar destacou dois caminhos possíveis para as empresas diante da nova exigência.

O primeiro é o compliance mínimo, em que a empresa organiza documentos e evidências apenas para atender à fiscalização. Embora reduza a exposição regulatória, esse modelo mantém os problemas estruturais e os custos operacionais.

O segundo é a gestão estratégica dos riscos psicossociais, que integra o tema à governança da empresa. Nesse modelo, há monitoramento contínuo, atuação preventiva, uso de indicadores e integração entre áreas como RH, segurança e liderança. “A diferença não está em fazer algo, mas em como a empresa decide agir. Reagir melhor ou gerir melhor”, sintetizou Campos.

Saúde mental deixa de ser invisível

A psicóloga organizacional Andréa Aguiar reforçou que os riscos psicossociais não são novos, mas recentemente passaram a ser mensurados, regulamentados e judicializados.

Dados apresentados indicam que os afastamentos por questões de saúde mental no Brasil mais que dobraram em 10 anos, passando de 221 mil para 472 mil casos. Paralelamente, ações trabalhistas por assédio moral cresceram 22% e por assédio sexual, 40%.

Segundo a especialista, a NR-1 consolida um entendimento já crescente no Judiciário: o ambiente de trabalho pode ser determinante no adoecimento mental. “O trabalho nunca é neutro. Ou ele favorece a saúde mental, ou contribui para o adoecimento”, afirmou citando Christophe Dejours, psiquiatra, psicanalista e professor francês reconhecido como o fundador da Psicodinâmica do Trabalho.

Ela também destacou que indicadores como absenteísmo, turnover, conflitos e queda de produtividade são sinais claros de riscos psicossociais e devem ser mensurados.

Mudança de mentalidade

Para os especialistas, o maior desafio não está na norma, mas na forma como ela é interpretada pelas empresas. “A principal dificuldade é o empresário enxergar isso como oportunidade e não como custo”, afirmou Campos.

A gestão eficaz passa por diagnóstico estruturado, definição de responsabilidades, formação de lideranças, criação de canais de escuta e implementação contínua, e não apenas ações pontuais que, muitas vezes, vão perdendo a força com o passar do tempo.

Capacitação – Curso no IBPIS com inscrições abertas

Como forma de apoiar as empresas nesse processo, a ABIMO e o IBPIS abriram inscrições para uma nova turma do curso NR-1 na Prática: Gestão de Riscos Psicossociais, ministrado por João Campos e Andréa Aguiar.

A capacitação terá 12 horas de conteúdo, distribuídas em quatro encontros, e abordará desde o diagnóstico até a implementação estratégica da gestão dos riscos.

As vagas são limitadas e as inscrições seguem abertas até 21 de abril. Clique aqui e saiba mais.

Para quem não conseguiu acompanhar o webinar ao vivo, o conteúdo completo está disponível online:

• Assista ao webinar clicando aqui.

• Acesse a apresentação do João Campos aqui e a apresentação da Andréa Aguiar aqui.

• Acesse o manual de interpretação e aplicação do capítulo 1.5 da NR-1 clicando aqui.

Publicado em 18/03/2026

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