“Sem musculatura industrial e produtiva, nenhum produto chega ao cidadão”, diz Gadelha, da Fiocruz

Executivo esteve em debate no primeiro dia do Fórum Brasil Saúde

Há 60 anos a ABIMO vem trabalhando para o fortalecimento da indústria nacional de dispositivos médicos e esse foi um dos principais temas debatidos no Fórum Brasil Saúde, evento realizado dentro da Medical Fair Brasil entre os dias 3 e 4 de maio. Em um debate extremamente relevante moderado por Claudio Allgayer, coordenador científico do fórum, Carlos Gadelha, coordenador do Centro de Estudos Estratégicos (CEE) da Fiocruz; Nelson Mussolini, presidente executivo do Sindusfarma; e Ruy Baumer, presidente do SINAEMO, conversaram sobre os inúmeros desafios que as fabricantes enfrentam para se manter em um mercado complexo e acirrado.

Bastante incisivo em sua apresentação, Gadelha declarou: “sem musculatura industrial e produtiva, nenhum produto chega ao cidadão”. Na visão do executivo, há mais de duas décadas o país já sabia da necessidade de investir na capacidade produtiva interna e, mesmo assim, com a chegada da pandemia, o caos se instalou e equipamentos diversos, bem como medicamentos, faltaram para a assistência à população.

Com dados, Gadelha comprova que o país tem um potencial que precisa ser mais explorado. “O mercado brasileiro de medicamentos cresce 12% ao ano, o que é mais que o chinês, que cresce 7%. Estamos com o ouro de um sistema produtivo em mãos”, pontuou. Para Baumer, que trouxe para o debate a visão interna da indústria, há uma falha estrutural. “Vivemos isso na pele como cadeia produtiva durante vários governos. Tivemos melhores e piores políticas implantadas, mas falta, sempre, a política de estado”, disse.

Mussolini concorda. “No nosso país não temos previsibilidade e segurança jurídica. As PPPs começam como política de estado, viram política de governo, passam para política de ministros, de secretários e, hoje, mal são políticas de diretores”, declarou.

Na visão do líder da Fiocruz, precisamos parar de menosprezar nossa capacidade inovadora e tecnológica. Hoje, o Brasil exporta minério de ferro, óxido de alumínio, melão, calçados, celulose, soja e petróleo cru. Mas poderia, sem sombra de dúvidas, exportar itens de média e alta tecnologia. “Voltamos a ser uma grande fazenda”, enfatizou.

Para ratificar o dito por Gadelha, podemos lembrar dos dados do Brazilian Health Devices (BHD), projeto setorial da ABIMO em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). No primeiro trimestre, as marcas que integram o projeto cresceram 36,2% no comparativo com os três primeiros meses de 2021, enquanto o crescimento geral do setor no país foi de 16,3%. Considerando que o foco do BHD é incentivar a internacionalização, abrindo novos mercados e auxiliando as companhias a apresentarem seus portfólios em diversas feiras pelo mundo, é perceptível que o fomento direto à exportação faz diferença.

Com base em todo o cenário traçado, Gadelha enfatizou que o grande segredo do sistema está na interdependência e que o setor de saúde é extremamente estratégico para que consigamos virar essa chave produtiva. “A saúde é a porta de entrada para a quarta revolução tecnológica. Qual outro segmento mobiliza 10% do PIB como o nosso? Tudo em saúde envolve tecnologia. A máscara que filtra o ar, é tecnológica. A vacina que salva vidas, tem inteligência artificial e big data”, declarou.

Por fim, o debate entre três grandes líderes da saúde conclui que a indústria brasileira carece de condições iguais para que possa competir com as marcas globais; que é necessário mudar a perspectiva do governo sobre o setor, para que os investimentos cheguem e possam se manter, garantindo segurança e previsibilidade; e que o país precisa acreditar no seu potencial inovador e tecnológico para seguir trabalhando pela saúde dos brasileiros e de todo o mundo.

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