Presidente da ABIMO defende investimento público no setor de Dispositivos Médicos para fortalecer o SUS

Ele destacou ainda a falta de incentivo para inovação da indústria nacional por parte do governo federal.

O presidente da ABIMO, Franco Pallamolla, participou nesta quarta-feira do 11.º “Seminário Novos Futuros, temas Estratégicos para o Desenvolvimento Tecnológico — Produtos para a Saúde”. O evento foi realizado em comemoração ao centenário do Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e teve como tema os investimentos em áreas com grande potencial de transformações tecnológicas.

Franco falou durante o Painel Estratégico, que reuniu lideranças de diferentes segmentos. Ele abordou a ausência de políticas públicas no setor de dispositivos médicos. “A participação da indústria nacional apresenta uma queda preocupante, com consequências sérias para a balança comercial do segmento”, destacou.

Para Franco, ficar à margem do mercado internacional, da Indústria 4.0, e das oportunidades da inserção do Brasil nas Cadeias Globais de Valor, não é uma alternativa para a indústria de saúde brasileira. Tampouco, para o país. Ele defende que o Estado reconheça a relevância estratégica do setor para o Brasil por meio de incentivos à produção nacionais.

“Ao longo da pandemia da Covid-19, o Governo reduziu tributos de importação e facilitou a aquisição de uma série de artigos para tentar suprir a hiper demanda do mercado interno em curto prazo. É notório que tais iniciativas contribuíram para a entrada de insumos estrangeiros”, afirmou. Porém, ressaltou Pallamolla, o mesmo estímulo deveria ter sido dado ao desenvolvimento da produção local e isso não foi feito. Ele também afirmou que a Indústria de Dispositivos Médicos inovou, sendo incansável na produção de produtos indispensáveis ao enfrentamento da pandemia.

Para Pallamolla, como a indústria nacional tem o SUS como seu principal cliente, estimular a inovação no setor é levar melhores serviços para a população como um todo.

“O desenvolvimento de políticas públicas para o país é essencial. Antes da pandemia, o SUS já era considerado o maior sistema de saúde pública entre os países com mais de 100 milhões de habitantes. Mas ainda há muito espaço para melhorias, como oferecer condições mais justas às indústrias de dispositivos médicos nacionais”, afirmou o presidente da ABIMO.

Ele também citou países como os EUA, Israel, Japão e Alemanha, que “aumentaram a potência de suas políticas públicas industriais” para o setor de dispositivos médicos, atraindo investimentos produtivos. “Precisamos convencer o Estado a avançar sobre o trilho de uma política industrial. É preciso para com os programas temporais e pensar a longo prazo e pensar e ter um programa de Estado”, completou.

Para ele, há seis suportes importantes que devem nortear este projeto: apoio à inovação; financiamento; uso do poder de compra do Estado; redução da tributação; defesas comerciais; e estímulos às exportações. “Precisamos saber se queremos um grau de dependência tecnológica cada vez maior?”, afirmou.

Painel Estratégico

Além do presidente da ABIMO, participaram também do Painel Estratégico o secretário de Empreendedorismo e Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), Paulo Alvim e a coordenadora-geral de Inovação Tecnológica do Ministério da Saúde, Luciene Schluckebier. O debate foi mediado pela diretora do INT, Iêda Caminha.

Paulo Alvim defendeu as iniciativas do governo de incentivo à inovação e desenvolvimento de novas tecnologias para combater a pandemia da Covid-19. Segundo ele, essa política permitiu a geração de novos postos de trabalho e de riqueza dentro do setor de saúde, especialmente entre as startups. O secretário destacou o papel do MCTI em priorizar a soberania tecnológica nacional. “O Brasil reúne todas as características para avançar no desenvolvimento da área de saúde, e é preciso avançar neste mercado a partir do conhecimento tecnológico e por meio do empreendedorismo”, destacou.

Já Luciene Schluckebier, do Ministério da Saúde, destacou as parcerias feitas pela pasta com projetos de pesquisa de desenvolvimento e inovação. Segundo ela, é impossível pensar no futuro do setor da saúde sem o financiamento dos empresários brasileiros. Ela ainda lembrou que foram realizados investimentos de mais de 200 milhões de reais no desenvolvimento de novas tecnologias e que o Ministério da Saúde fomenta a produção de inovações que, posteriormente, são incorporadas ao SUS.

Tecnologia 3D

Além do debate da tarde, o “Seminário Novos Futuros — Temas Estratégicos para o Desenvolvimento Tecnológico”, reuniu, pela manhã, pesquisadores que lideram o desenvolvimento de tecnologias de ponta no Brasil e na França. Eles apresentaram pesquisas e soluções inovadoras de uso da manufatura aditiva (impressão 3D), nanotecnologia e plataformas digitais, capazes de mudar os paradigmas da fabricação de dispositivos médicos.

Participaram desta etapa: a coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência dos Materiais do Instituto Militar de Engenharia (IME-RJ), Andersan dos Santos Paula; o diretor do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), Jorge Vicente Lopes; a professora-pesquisadora efetiva do Instituto National des Sciences Appliquées de Toulouse, Anna Carla Araujo; e a diretora-adjunta do Centre Rapsodee — associado ao École des Mines d-Albi-Carmaux, do Ministério da Indústria francês —, Maria Inês Ré.

Andersan dos Santos Paula, especialista do IME, falou sobre a importância dos investimentos em pesquisa e inovação em impressão 3D. Ela mostrou dados de países desenvolvidos, como os EUA e Alemanha, que apresentam um crescimento progressivo no uso da tecnologia como solução para a saúde. Para a especialista, o Brasil precisa “acordar” para este mercado. Indicou, também, iniciativas para alavancar o segmento, como um investimento robusto em programas de pós-graduação voltados para a tecnologia de 3D. Ela também disse que é preciso facilitar a abertura de pequenas empresas, que façam uso da impressão 3D, para atender a demanda interna do país.

Já Jorge Vicente Lopes, diretor do Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI), abordou as possibilidades que envolvem o uso da impressão 3D. Ele falou sobre o uso da tecnologia na manufatura aditiva. “O CTI trabalha com imagens de tomografia e, por meio de um software chamado InVesalius, faz impressões para realizar cirurgias e outros procedimentos médicos”, afirmou. Ele também enaltecendo o trabalho que foi executado usando essa ferramenta no Brasil durante a Covid-19, citando equipamentos que foram feitos para atender a demanda do SUS.

Anna Carla Araujo apresentou um case de Toulouse, na França, e como a indústria local de aviação tem usado a impressão 3D para resolver a falta de peças de reposição. Segundo ela, há um paralelo, neste sentido, que pode ser feito entre o setor aeronáutico e o da saúde, principalmente no segmento de implantes ósseos.

Por último, Maria Inês Ré explicou os processos e a metodologia. Ela falou sobre os incentivos do governo da França aportados na indústria de manufatura aditiva, com suporte intelectual da comunidade acadêmica, e de que forma isso alavancou o crescimento do setor. Ao longo de sua apresentação, Maria Inês também falou sobre a relevância do desenvolvimento da impressão em 3D no âmbito da sustentabilidade, sobretudo ao abordar o desenvolvimento e a manipulação de medicamentos.

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