Empoderamento do paciente – Divergências sociais e gestão desencontrada como desafios a serem vencidos

Tema foi debatido por especialistas durante Fórum Brasil Saúde

Como empoderar o paciente no século XXI? E como identificar (e tratar) as diferenças sociais, educacionais, culturais e os desencontros políticos que impactam a assistência à saúde de um país continental? Essas foram as principais questões de um dos debates do Fórum Brasil Saúde, evento promovido pela ABIMO na Medical Fair Brasil.

Para a discussão, moderada por Fernando Torelly, CEO do HCor, foram convidados Aline Horta Guinle e Paulo Chapchap, respectivamente superintendente do CX/Design e conselheiro estratégico do Negócio de Hospitais e Oncologia da DASA; além de Ana Amélia Lemos, ex-senadora da República.

Desigualdade sempre foi um problema a ser sanado no Brasil. “Na cidade de São Paulo, há uma diferença de 40% na expectativa de vida do morador do bairro mais rico para a do morador do bairro mais pobre”, disse Torelly referindo-se ao Mapa de Desigualdade da capital paulista que relatou que enquanto no Alto de Pinheiros uma pessoa vive em média 80,9 anos, em Guaianases, no extremo leste, ela chega aos 58,3 anos apenas.

Chapchap trouxe uma explicação bastante plausível para esse resultado. Segundo ele, que tem ampla expertise no segmento hospitalar, um dos grandes problemas causadores dessa desigualdade é a educação para o autocuidado. Independentemente da estrutura que receberá o paciente – Torelly já havia mencionado que há UTIs diferentes para pacientes diferentes –, há uma discrepância brutal entre o que procura o SUS e o que procura o privado. “Nas periferias, as pessoas costumam chegar ao pronto-socorro com estado de morbidade e comorbidades agravadas, como pacientes hipertensos e diabéticos que nem sabiam de sua condição”, disse.

Dando sequência a esse apontamento, Ana Amélia deu um passo atrás ao mencionar a grande leva de brasileiros que não têm sequer certidão de nascimento. “Temos um único sistema de saúde que precisa dar também para essas pessoas “invisíveis” o tratamento que necessitam. Elas não podem esperar um ano para, por exemplo, fazer uma cirurgia de mastectomia, que é de urgência”, declarou. Na sequência, reforçou que a saúde suplementar brasileira cresceu tanto – hoje atende cerca de 42 milhões de cidadãos – justamente porque o SUS não conseguiu atender à demanda que lhe cabia.

Do ponto de vista político, Torelly nos lembrou que desde a implantação do SUS, em 1988, o país teve 31 ministros da saúde e que essa gestão desencontrada prejudica o andamento de qualquer política do setor; Chapchap relembrou que, durante a pandemia, sentiu dificuldade para fazer políticas integradas entre saúde, educação e assistência social; e Ana Amélia criticou a gestão orçamentária, declarando que não há avaliação da efetividade do orçamento da saúde no país. “Temos de nos conscientizar que essa é a nossa dura realidade e que temos um caminho difícil, lento e tortuoso para seguir”, completou a ex-senadora.

Humanização do atendimento

Para o empoderamento real do paciente, será que as mudanças não deveriam ir mais fundo, atingindo até mesmo as definições tão utilizadas hoje em dia? O termo “paciente”, por exemplo, já carrega, em si, uma carga de pouca autonomia. “Quando falamos paciente, o que nos vêm à cabeça? Aquele que sofre, que não se importa de esperar, que já está sob algum tipo de tratamento”, relata Aline. Com esse discurso, foi iniciado um debate sobre a humanização das pessoas e dos atendimentos, já que tudo isso também impacta no empoderamento, principalmente no ambiente hospitalar.

Recém-recuperado de um problema de saúde que o levou à internação, Torelly trouxe sua percepção de executivo, mas também de paciente. “O hospital é o único tipo de indústria onde há gente cuidando de gente, sem automatização. Como manter um discurso de qualidade de atendimento, se aquelas pessoas que estão ali prestando serviços não têm acesso a um atendimento de qualidade no seu dia a dia? Nos dois anos em que estou no HCor, o que mais me orgulha é que todo colaborador da unidade tem acesso aos mesmos atendimentos dados aos clientes. Essa é a nossa política de gestão de pessoas”, disse. Humanização do paciente e do prestador.

De 1500 a 2022

No início das apresentações, Aline convocou os presentes a uma análise baseada na evolução da sociedade e da sua relação com a saúde. Segundo a especialista, de 1500 até a atualidade, é possível perceber três fases distintas. Até 1900, as pessoas entendiam a saúde como um privilégio não acessível a todos.

Na sequência, até meados de 2015, graças à forte divulgação e disseminação do SUS e ao crescimento do mercado de saúde suplementar, o cenário mudou e abriu espaço para uma saúde mais funcional. Nesse momento, surgiam campanhas de prevenção – como o Outubro Rosa –, houve um boom das atividades físicas, e a tecnologia na palma da mão das pessoas passou a permitir acesso a instruções e monitoramentos antes impossíveis. “Existem aplicativos para ajudar a lembrar de beber água, a entender o melhor horário para dormir e acompanhar a performance esportiva”, exemplificou Aline.

Posteriormente à 2015, momento em que ainda permanecemos, mais uma alteração na percepção da saúde por parte da população. Com acesso à tecnologia, conhecimento e informação de sobra, chegamos à saúde integrada, onde há um olhar mais amplo de que ter saúde é melhor que tratar doenças.

Com base em tudo isso, o que é possível observar atualmente? Para Aline, o ponto-chave está na construção de uma sociedade em rede. “As conexões que as pessoas fazem ditam a regra do jogo. Elas passam a entender quem são os principais atores que cuidam da sua saúde e a autonomia passa a ser um valor central. Com informações em mãos, elas se empoderam e querem tomar decisões”, declarou.

Na visão de Chapchap, é um desafio colocar o plano de cuidado na mão do paciente (ou de seu acompanhante). “Como médico posso afirmar que, muitas vezes, podemos chegar ao mesmo resultado por caminhos diferentes e o paciente tem o direito de escolher o percurso que quer seguir, pesando o que é mais adequado para ele naquele momento”. A lição que fica, após todo esse debate, é que o paciente hoje tem total capacidade de reconhecer seu estado de saúde, suas limitações e suas possibilidades, conta com a tecnologia como sua aliada, e o corpo clínico – bem como as instituições de saúde – precisam estar aptas a tratar esse paciente como uma pessoa com autonomia e poder de decisão.

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