Farmacêuticas aceleram aportes em P&D


Jornalista: Márcia R. Corradini

Uma guinada brusca é a melhor imagem de o que acontece em 2020 no setor farmacêutico. Praticamente tudo ou está sendo revisto ou reprogramado em função da brutal e repentina demanda global por antibióticos, anestésicos e até antidepressivos e anticoncepcionais na esteira da mais grave crise sanitária dos últimos cem anos.

Está em curso desde uma reavaliação detalhada do rol de moléculas dentro das expertises de cada um dos líderes globais de medicamentos, até uma aceleração no desenvolvimento de fármacos, vacinas e novos medicamentos nos grandes laboratórios farmacêuticos: tudo em nome do enfrentamento da emergência global da covid-19.

No momento, entretanto, ninguém arrisca dimensionar a repercussão da pandemia para o negócio de medicamentos ao redor do mundo.

Centenários laboratórios globais da farmacêutica como Sanofi, Bayer, Pfizer, GSK, Novartis ou líderes nacionais como Cristália, Eurofarma, EMS e até startups brasileiras estão numa corrida sem precedentes para capturar ou catapultar resultados no mercado de remédios e terapias.

“Nós fizemos uma ampla revisão de nossas moléculas e temos, hoje, investimentos em cerca de cem delas com potenciais para auxiliar nos efeitos do covid-19”, afirma Adib Jacob, presidente da alemã Bayer Pharma para a América Latina. Todo o esforço e agilidade contam na divisão internacional do trabalho em todos os centros de pesquisa das multinacionais pelo mundo, alguns só para a fase de testes finais da pesquisa clínica.

Há uma corrida global com cerca de uma centena de candidatos somente para a produção de vacinas contra a covid-19, e pelo menos 18 deles estão em fase adiantada de pesquisa clínicas. A francesa Sanofi, líder mundial de vacinas, e a britânica GlaxoSmithKlaine (GSK) fizeram uma aliança para somar capacidade de produção de pelo menos 1 bilhão de doses da vacina, que está em fase de testes na Europa.

“Nós estamos correndo com duas tecnologias diferentes de vacinas: uma, mais adiantada para o primeiro trimestre de 2021, de proteína recombinante (como a utilizada na vacina da influenza), e outra da rota gênica,com o RNA mensageiro (mRNA), que projetamos para outras 500 milhões de doses, com lançamento para o final do primeiro semestre de 2021”, conta Felix Scott, general manager da Sanofi Brasil, que tem com o governo brasileiro o maior programa de vacinação contra gripe do mundo.

Ao mesmo tempo, após a incômoda constatação quanto ao alto grau de dependência da indústria mundial em relação às matérias-primas básicas de fármacos (ifas) produzidas na China ou na Índia, a Sanofi decidiu ampliar e acelerar seus investimentos e destinou uma fatia do montante de inversões anuais de € 6 bilhões para sua unidade de matérias-primas, que será a maior da Europa. Paralelamente, Romênia e Hungria também começam a despontar como locais competitivos para retomada da produção desses insumos na Europa.

José Carlos Felner, presidente da GSK do Brasil, acredita que o ano de 2020 ficará marcado como o mais caótico deste século e a união sem precedentes entre ciência, academia e a indústria farmacêutica deverá mudar os “paradigmas da pesquisa e produção de vacinas e medicamentos em geral”. Além da parceria com a Sanofi, na qual emprega sua tecnologia adjuvante, que reduz a quantidade de antígeno por dose e multiplica a capacidade de produção de vacinas, a GSK já firmou parcerias com as chinesas Clover e a Xiamen Innovax Biotech e com a canadense Medicago, além da Universidade Queesland (na Austrália). “Entendemos que haverá mais de uma vacina devido às particularidades do vírus e esperamos que várias delas sejam bem sucedidas.”

A americana Pfizer acelera as fases 2 e 3 de pesquisa para sua vacina baseada em RNA mensageiro. “O Brasil é um dos poucos países participantes desse nosso estudo”, comenta Marjorie Dulcine, diretora médica da Pfizer Brasil. A iniciativa já começou em São Paulo e Salvador e cerca de mil voluntários participarão dessa fase. Quando a vacina experimental receber a aprovação regulatória a Pfizer espera produzir 1,3 bilhão de doses até o fim de 2021. E, assim como os demais líderes mundiais da farmacêutica, fará isso sem deixar de lado seus pesados investimentos em outras moléculas ou terapias, como a gênica.

O ritmo não é diferente em pequenas companhias, antes até desconhecidas como a Moderna, dos Estados Unidos, ou startups que surfam a onda da inovação em biotecnologia como a brasileira Farmacore. Helena Faccioli, CEO da startup Farmacore, de Ribeirão Preto (SP), fez uma parceria para uso da plataforma de nanotecnologia da americana PDS Biotechnology Corp., e está desenvolvendo a primeira vacina contra o covid-19 que é 100% nacional. Ela conseguiu o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep, do BNDES) e, até meados de agosto aguardava a aprovação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para somar um montante de R$ 15 milhões e acelerar testes necessários para a habilitação da vacina na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“Nossa vacina é baseada em imunomoduladores, neste caso uma recombinação de uma proteína da Sars-CoV-2. É uma tecnologia patenteada de ativação das células T (de defesa do organismo)”, diz Faccioli.

Toda essa aceleração na cadeia farmacêutica trouxe impactos importantes nos custos de logística, tanto para os insumos farmacêuticos como para a distribuição de medicamentos acabados em todo o mundo. Mas, em países continentais como o Brasil, o peso desse custo é maior, sem contar as regras de distanciamento social, que obrigaram os laboratórios farmacêuticos a realocar funcionários e redesenhar suas linhas de pesquisa a produção de remédios.

“Este ano vamos ter um aumento de demanda por medicamentos, ainda na casa dos dois dígitos, mas não de lucratividade, porque os custos, sobretudo com a importação de matérias-primas, com a alta do dólar, estão maiores”, comenta Renato Carvalho, CEO da Novartis no Brasil. Segundo Carvalho, o resultado da pandemia será o maior cuidado generalizado com a saúde ao redor do mundo e trará impactos sensíveis para a demanda do setor farmacêutico.

Há um sem número de medicamentos impactados pelo combate à pandemia, mas nenhum deles tão forte como nos anestésicos e antibióticos para doenças pulmonares. A brasileira Cristália, líder nacional de vendas hospitalares, viu a demanda de anestésicos para UTIs crescer mais de 30 vezes em praticamente dois meses, isso porque o nível de uso de anestésicos saiu da casa de 3 a 4 horas por paciente por dia para 28 a 30 dias de uso ininterrupto por paciente internado com a covid.

“Fizemos um grande esforço, mobilizando todos os departamentos da empresa para garantir a urgência. Modificamos equipamentos, processos recursos humanos e logística e, respeitando o plano de distanciamento social, contratamos novos colaboradores”, afirma Ricardo Pacheco, diretor geral do Laboratório Cristália, que quadruplicou a produção do que ficou conhecido nos hospitais como o kit covid, composto por anestésicos, narcoanalgésicos, relaxantes musculares e sedativos utilizados em intubações endotraqueais.

Pacheco enfatiza que “outro fator crucial para o abastecimento no país foi a utilização de nossa planta farmoquímica. O Cristália produz 53% dos insumos que utiliza na produção de seus medicamentos, enquanto o mercado importa 90% desses insumos”, acrescenta Pacheco.

Também na Eurofarma, multinacional brasileira que opera em 17 países, a demanda por anestésicos, bloqueadores e desbloqueadores musculares, assim como antiobióticos, especialmente dos hospitais, cresceu exponencialmente. Segundo Martha N. O. Penna, vice-presidente de inovação da Eurofarma, a empresa criou um comitê covid, focado no atendimento à pandemia, especialmente em suprimentos, alternando fornecedores da China, Espanha e Itália para assegurar seus estoques estratégicos de matéria-prima a todas suas operações. “Os anticonceptivos, antidepressivos e até anti-hipertensivos também cresceram fortemente na esteira da pandemina e exigiram adaptações nas nossas linhas”, diz Penna.

A EMS, por meio de sua controlada americana Vero Biotech, está testando um dispositivo (Genosyl), aprovado pelo FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, em pacientes de covid-19. De acordo com Roberto Amazonas, diretor médico-científico da EMS, pela portabilidade o dispositivo pode ser utilizado em casa, especialmente em casos leves e moderados, em tratamentos com oxigênio via cânula nasal com o monitoramento remoto de médicos.

A joint-venture da EMS, Aché, Hypera Pharma e União Química, a Bionovis, aposta na sua rota biotenológica para produção de matérias-primas farmacêuticas no país com a inauguração da sua fábrica em 2022. “Estamos investindo R$ 421 milhões na produção de biofármacos de alta complexidade com capacidade de 250 quilos de proteína por ano para atender a demanda interna de medicamentos e também exportar”, adianta Odnir Finotti, presidente da Bionovis.

Diálogo com a Anvisa é intensificado

Jornalista: Márcia R. Corradini

Os dois anos habituais na fila pela aprovação de um medicamento no Brasil parecem ser coisa do passado. Os laboratórios farmacêuticos e seus representantes institucionais apontam que a pandemia sedimenta uma nova fase entre autoridades sanitárias e o setor privado de saúde.

E a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é o destaque nesse sentido. A urgência dos laboratórios em substituir fornecedores de matérias-primas ante a série de lockdowns na China, Itália, Espanha, por exemplo, fez com que os laboratórios locais tivessem que submeter às autoridades uma série de matérias-primas de procedências diferentes das já registradas na agência, obtendo aprovações céleres. “Há uma equipe de qualidade técnica de alto nível na agência e o conhecimento das moléculas ajuda muito no diálogo com os cientistas dos laboratórios. E tempo é dinheiro”, lembra Henrique Tada, diretor-executivo da Associação Nacional dos Laboratórios Nacionais (Alanac).

Renato Carvalho, CEO da Novartis do Brasil, explica que sua companhia aprovou a primeira terapia gênica no país graças ao conhecimento técnico da Anvisa, que criou protocolos para medicamentos com base genética, o que abre caminho para produção de medicamentos de alta tecnologia no Brasil.

“O diálogo com a Anvisa subiu de patamar. E mesmo com as trocas no Ministério da Saúde não houve interrupção, como no passado, na análise de medicamentos”, diz Nelson Mussolini, presidente do Sindicato das Indústrias Farmacêuticas, Sindusfarma.

Genéricos já têm mais de um terço do mercado

Jornalista: Vladimir Goitia

A desaceleração da economia no primeiro semestre e a expectativa de um encolhimento significativo para este ano não afetaram o avanço sustentado dos medicamentos genéricos no mercado nacional. Também não impediram e nem atrasaram decisões de novos investimentos de empresas desse setor.

De janeiro a junho, as vendas desse segmento cresceram 10,34%, ante igual período de 2019, segundo dados do IQVIA, empresa que audita o varejo farmacêutico no país. No mesmo período, o mercado farmacêutico total avançou pouco menos, 8,6%. As vendas no semestre somaram R$ 10,7 bilhões.

Ao todo, 1,5 bilhão de unidades foram comercializadas no primeiro semestre. Com este resultado, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos (PróGenéricos), o setor alcançou, em unidades vendidas, uma participação de 34,6% no mercado farmacêutico do país.

Telma Salles, presidente da entidade, avalia que a confiança dos médicos nos medicamentos genéricos tem sido um fator decisivo para essa expansão. “A combinação de qualidade e preços menores fazem dos genéricos o motor de crescimento da indústria farmacêutica”, afirma.

Dos 20 medicamentos mais prescritos nos últimos 12 meses encerrados em maio, por exemplo, 15 eram genéricos. Desde que chegaram ao mercado, há 20 anos, os genéricos já proporcionaram mais de R$ 162 bilhões em economia para o consumidor em gastos com medicamentos, segundo Telma. Isso considerando apenas os 35% de desconto previsto em lei.

Em alguns casos, os genéricos chegam a ser até 80% mais baratos do que os medicamentos de referência. Esses descontos, entretanto, estão relacionados a aspectos comerciais e estratégicos de cada fabricante.

Por exemplo, a Cimed, que tem promovido descontos superiores aos da lei, viu suas vendas aumentarem mais de 31% no primeiro semestre, em relação ao mesmo intervalo de 2019, com um total de 64 milhões de caixas.

“Até o fim do ano, a expectativa é vender entre 130 milhões e 140 milhões de caixas. Com isso, a previsão de faturamento da empresa para este ano é de R$ 2 bilhões, 30% acima dos R$ 1,53 bilhão em 2019”, diz João Adibe, presidente da farmacêutica.

Até setembro, a Cimed deve inaugurar a primeira fase de construção de uma nova unidade fabril do grupo em Pouso Alegre (MG), e, em julho do próximo ano, entregar a segunda fase. A empresa investiu R$ 400 milhões nessa planta. Já os investimentos em P&D devem alcançar R$ 80 milhões, acima dos R$ 65 milhões em 2019.

A EMS, líder no segmento desde 2013, vendeu 140 milhões de caixas de medicamentos genéricos até o fim de julho, e a expectativa é comercializar 240 milhões de unidades este ano. No ano passado, a EMS faturou só com sua linha de genéricos R$ 4,5 bilhões e comercializou 201 milhões de unidades. “Para 2020, a expectativa é de 26% de crescimento em faturamento com essa linha de medicamentos”, afirma Aramis Domont, diretor comercial da Unidade de Genéricos da EMS.

O executivo informa que a empresa direciona anualmente 6% de seu faturamento para P&D. Entre 2012 e 2021, cerca de R$ 1 bilhão terão sido investidos nas unidades fabris da companhia (duas em SP, uma no DF e outra no AM), no maior plano de expansão de sua história.

Já as vendas da Sandoz do Brasil tiveram um aumento de 11% até o momento. Segundo o IQVIA, o faturamento da empresa em 2019 foi superior a R$ 720 milhões. A estimativa para 2020 é de crescimento acima de 10%.

“Em nossa fábrica de Cambé (PR) temos capacidade para a produção de 2,2 bilhões de comprimidos por ano e 100 milhões de caixinhas”, diz Érica Sambrano, diretora comercial da companhia. Érica informa que cerca de R$ 13 milhões serão aplicados em projetos de desenvolvimento e, em 2021, a expectativa são R$ 42 milhões.

Em relação aos preços, as três farmacêuticas aplicaram reajuste anual de acordo com a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Esses reajustes foram, em média, de 4% em junho, com um atraso de três meses definido pelo governo em função da pandemia.

Cresce consumo de relaxantes musculares e antidepressivos

Jornalista: Rosangela Capozoli

A epidemia estimulou o consumo do analgésico e relaxante muscular Dorflex, que já era o medicamento mais vendido do país há vários anos, segundo dados da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma). Suas vendas, que geraram mais de R$ 470 milhões em 2019, tiveram aumento de 53% no primeiro semestre sobre o mesmo intervalo de 2019.

Para Edison Tamascia, presidente da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar), os profissionais, acostumados a trabalhar no escritório com suas cadeiras ergométricas, foram para o home office, onde o padrão pode ser inferior e causar dores musculares.

Outro medicamento em alta é o Rivotril (clonazepan). Em março e abril, as vendas subiram 22% em relação ao mesmo bimestre de 2019, passando de 4,6 milhões para 5,6 milhões de caixas, segundo dados do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma). O fármaco é usado para tratar depressão, insônia e crises de ansiedade.

Um estudo do Close-Up Internacional – empresa que audita o setor farmacêutico – mostra que as vendas de medicamentos com e sem receita médica no varejo brasileiro dispararam já no início da epidemia. “Na primeira semana de março foram 132,2 milhões de unidades vendidas, 29,2 milhões a mais do que última semana de fevereiro”, diz Paulo Paiva, vice-presidente da Close-Up International para a América Latina.

Importação de equipamentos gera déficit de R$ 3,6 bilhões

Jornalista: Marinete Veloso

Com a meta de reduzir o déficit de sua balança comercial, o setor de equipamentos médicos e hospitalares já tem pronta uma pauta de reivindicações ao governo no âmbito da reforma tributária. A principal delas é a de que o produto fabricado no Brasil tenha as mesmas vantagens fiscais que o produto importado, quando este for adquirido por hospitais públicos e/ou beneficentes. Hoje, quando um hospital compra um produto importado, nenhum tributo incide sobre ele; porém, se o adquirir no mercado local, pagará todos os tributos, informa Pedro Henrique Fraccaro, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos (Abimo). “Não queremos privilégios, mas igualdade de condições”, pondera.

Há anos, o mercado brasileiro de equipamentos médicos e hospitalares revela-se deficitário em sua balança comercial. No ano passado, o setor movimentou US$ 5,04 bilhões, dos quais US$ 4,33 bilhões relativos aos produtos importados e US$ 697,5 milhões em exportações, que contribuíram para um saldo negativo de US$ 3,64 bilhões, conforme dados do Ministério da Economia fornecidos pela Abimo. “De cada R$ 100,00 que o SUS gasta com equipamentos, R$ 60,00 são com produtos de fora”, informa Fraccaro.

Fernando Silveira Filho, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Alta Tecnologia de Produtos para a Saúde (Abimed), espera que a reforma tributária expresse o caráter essencial do setor da saúde e evite onerar algum elo dessa cadeia. “Qualquer aumento da carga tributária sobre o setor trará prejuízos ao Estado (via SUS), ao setor privado e, principalmente, dificultará o acesso da população às tecnologias disponíveis”, diz.

Fraccaro, da Abimo, afirma que 60% das empresas desse setor são de pequeno e médio portes, com faturamento entre R$ 10 milhões e 15 milhões por ano. “Sozinhas, elas não conseguem montar a estrutura necessária para se tornarem exportadoras.” Ele destaca que a vantagem de exportar não é apenas a de trazer dólares para o país, mas de comparar produtos e investir em modernizações. “Se o empresário se limitar ao mercado nacional, ficará cada vez mais míope.”

A crise mundial desabasteceu o mercado de equipamentos na área da saúde, causando um desequilíbrio imediato entre oferta e demanda, que se refletiu no aumento momentâneo dos preços internacionais, avalia o presidente da Abimed. “O custo logístico alto e a acelerada desvalorização do real estão entre os principais fatores que impactam negativamente a balança comercial”, diz.

Silveira Filho acredita que a solução para o setor de saúde reside na formulação de uma política industrial que fortaleça a fabricação no Brasil, sem discriminação da origem do capital. “Com ela, buscaremos a retenção e a ampliação dos investimentos hoje existentes, trazendo também segurança jurídica aos investidores”, pondera. Ele ressalta que o país precisa criar um arcabouço regulatório mais atual, em sintonia com as normas internacionais. “Somente garantiremos expansão de mercados e reciprocidade em todo o espectro de negociações se inserirmos o Brasil nas cadeias internacionais de abastecimento”, observa.

A Abimo, que representa 400 empresas desse setor, trabalha para levar essa visão ao governo e às duas casas do Congresso Nacional, informa Fraccaro. Ele avalia que esses atores já compreenderam a relevância do tema, por isso acredita que há espaço para discuti-lo no âmbito da reforma tributária.

Em outra frente, atuando para incrementar a pauta das exportações, está a Agência de Promoção de Exportações (Apex), cujo foco é a inserção do Brasil nas cadeias globais de valor, por meio de parcerias estratégicas. “Temos hoje programas que englobam um conjunto de iniciativas voltadas à promoção de negócios internacionais. Qualificamos empresas e realizamos um trabalho de marketing voltado à promoção da imagem e à geração de negócios”, informa Sergio Segovia, presidente da Apex-Brasil. Segundo ele, o modelo utilizado pela entidade é o das parcerias público-privadas, pois estas já demonstraram ser capazes de diluir custos e ampliar a projeção internacional dos participantes.

Um dos programas bem-sucedidos da Apex, em parceria com a Abimo, é o Brazilian Health Devices, evento criado em 2002 com o objetivo de fomentar as exportações das indústrias de materiais e equipamentos de saúde. Na edição deste ano, devido à quarentena vigente nos países participantes, pela primeira vez o encontro foi realizado no formato on-line, entre os dias 10 e 20 de agosto. Desta rodada participaram 130 empresas de 11 países, entre eles grandes compradores como Indonésia, Irã e Colômbia.

O combate à pandemia no Brasil propiciou oportunidades de negócios em vários campos, como no de aparelhos e itens de proteção, mas o caso mais emblemático é o dos ventiladores. Em abril, quando ocorreu a crise de importação desses equipamentos, o país tinha quatro fábricas de ventiladores. Face à dificuldade de comprá-los no exterior, o Ministério da Saúde recorreu à indústria local, que respondeu prontamente ao desafio. Como resultado, diz Fraccaro, existem hoje dez fábricas do produto no país.

O caso da Magnamed é um bom exemplo. Líder desse mercado, a empresa havia fabricado 1.800 ventiladores em 2019, quando faturou R$ 47 milhões. Neste ano, impulsionada pela forte demanda provocada pela covid-19, só nos últimos quatro meses, produziu 5.060 ventiladores já entregues ao Ministério da Saúde. Com isso, para 2020, a empresa espera faturar R$ 390 milhões. “Com a conclusão dessas entregas, nosso foco agora são projetos voltados para a melhoria da infraestrutura de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) que se destinarão a hospitais de vários países”, informa Wataru Ueda, CEO e fundador da empresa.

Segundo ele, a batalha agora é de outra ordem: superar a lentidão dos processos alfandegários que, devido ao aumento do fluxo de encomendas trazido pela covid-19, estão gastando 80% mais tempo do que registrado antes.

Superar os obstáculos na alfândega, principalmente em termos de logística e da carência de técnicos capacitados, também é o desafio da Fanem. Líder de mercado em equipamentos e instrumentos pré-natal, suas exportações representam 35% do faturamento que, no ano passado, foi de R$ 100 milhões. “Uma interpretação errada de um técnico na aduana pode atrasar em até dois meses uma exportação, com consequências muitas vezes desastrosas para a empresa. É inconcebível perdermos um comprador que levamos anos para conquistar por causa de atrasos no atendimento”, diz Rodrigues, cujo maior cliente é o SUS, que absorve 60% da produção da Fanem.

Para reduzir os custos com exportação, Rodrigues espera que o governo incentive a criação de certificadoras e promova maior capacitação local dos laboratórios de certificação e ensaio, processos hoje realizados a preços altos, por certificadoras no exterior.

Outra área da saúde que apresenta déficit na balança comercial é a dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs), em que há uma grande dependência do mercado internacional, principalmente de China e Índia. “A indústria de genéricos importa mais de 90% dos insumos para a fabricação dos medicamentos no país”, informa Telma Salles, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos (Pró-Genéricos).

De acordo com a executiva, as alternativas para reverter esse quadro passam pela criação de políticas efetivas de incentivo à produção local. “Temos um parque fabril moderno, competitivo e uma ótima legislação sanitária que garante padrões estritos de controle de qualidade”, avalia, salientando que os genéricos brasileiros já atendem a 95% das doenças conhecidas.

Nessa área, a associação reivindica ao governo mecanismos mais ágeis nas análises dos processos de concessão de patentes, hoje muito longas.

A balança comercial dos medicamentos biológicos, segmento no qual o Brasil é o maior cliente individual de produtos do mundo, também é deficitária. A Companhia Brasileira de Biotecnologia Farmacêutica (Bionovis), joint-venture dos laboratórios Aché, EMS, Hypera Pharma e União Química importou no ano passado US$ 2,2 bilhões e exportou US$ 90 milhões, apresentando déficit de US$ 2,1 bilhões. “Os biológicos representam 5% do volume de compras externas do Ministério da Saúde e seus valores são significativos; eles representam 45% dos gastos de importação de medicamentos para o SUS”, destaca Odnir Finotti, CEO da empresa.

Mas este quadro está em vias de mudar. A Bionovis toca um projeto de transferência de tecnologia no qual já investiu R$ 215 milhões, para produzir biofármacos em uma planta em Valinhos, interior de São Paulo. As obras civis estarão prontas no final deste ano, quando o projeto passará à segunda fase, que irá absorver mais R$ 206 milhões em estruturas, montagem de equipes técnicas e desenvolvimento de tecnologias, de forma a estar plenamente operacional no início de 2022.

Finotti explica que durante o processo de transferência de tecnologia os preços dos produtos serão declinantes de forma a que, ao fim do processo, atinja redução de 50%. “Nossa missão é tornar a Bionovis, em dez anos, uma empresa global de biotecnologia farmacêutica”, prevê.

Segundo a assessoria de imprensa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a regulação nas áreas da saúde é imprescindível para a solidez do mercado e a construção de um cenário favorável ao desenvolvimento. Para a entidade, há um campo promissor porque, mesmo que as empresas brasileiras de medicamentos em geral tenham hoje volume suficiente para abastecer o mercado interno, elas possuem capacidade para crescer e produzir insumos ativos de alta qualidade e com segurança equivalente àqueles fabricados internacionalmente.

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