ABIMO é fonte em especial do Valor Econômico

Rede Conectada

Na chamada quarta revolução industrial, que incorpora aos processos produtivos e aos serviços a convergência de tecnologias digitais, internet das coisas e biotecnologia, o setor de saúde do Brasil ainda dá os primeiros passos se comparado aos países desenvolvidos. Há uma efervescência de iniciativas nos segmentos público e privado na busca de inserção no modelo da chamada saúde 4.0, mas são avanços isolados, pouco perceptíveis para a população.

A transição é, no entanto, um imperativo global e guia os rumos do sistema de saúde do Brasil, fomentando a instituição de novas políticas públicas, criando produtos e expandindo mercados já existentes para aproveitar o potencial gigante de crescimento neste novo cenário. Estudo da Delloite estima que o setor movimentará mundialmente US$ 8,7 trilhões até 2020. A fatia dos gastos públicos e privados com saúde em relação ao PIB, porém, deve ficar estável até lá, na faixa de 10,5%. 

“As inovações vão derrubar custos, mas também há um torniquete nos gastos. Os países concluíram que não dá mais para aumentar a disponibilidade de recursos para a área”, afirma Enrico De Vettori, sócio-líder da indústria de life sciences & health care da Deloitte Brasil. “Hoje, o prestador de serviço é remunerado independentemente dos resultados obtidos. Quanto mais faz, mais ganha, o que leva a redundâncias, desperdícios e fraudes. Com a saúde 4.0, o pagamento passa a ser por resultado – a fonte pagadora fixa um valor pré-definido por vida, fazendo com que o prestador administre o recurso da maneira mais eficiente possível”, diz o líder para o setor farmacêutico na KPMG, Leonardo Giusti.

A saúde digital pretende resolver esta equação substituindo o foco do sistema, que hoje é a doença, pela promoção da saúde. Dispositivos móveis e vestíveis permitem monitorar remotamente o paciente, que, por sua vez, tem acesso a seu histórico e conectividade com a cadeia, ganhando autonomia para cuidar de si próprio e mais poder na relação com os médicos, fazendo uso racional do sistema. Nos hospitais, a conectividade entre equipamentos, com uso de big data e data analytics, contribui para a otimização na tomada de decisões, com diagnósticos mais precisos e tratamentos mais adequados.

Na indústria, a impressão 3D proporciona a produção customizada de materiais como os destinados a implantes, que podem servir para simulações de procedimentos e aplicação de peças personalizadas, eliminando estoques e riscos de erros médicos. No Brasil, tudo isso é incipiente. Em hospitais de ponta, como o Sírio-Libanês, o prontuário eletrônico é rotina, a distribuição de medicamentos é feita por um robô que movimenta 3.700 itens, e o transporte de remédios de urgência é feito por dutos pneumáticos, relata o ex-superintendente do hospital, Gonzalo Vecina, professor da Faculdade de Saúde Pública da USP.

“Porém, dos 6.200 hospitais brasileiros, talvez 500 tenham algum nível de informatização e, desses, de 10 a 15 tenham prontuário eletrônico.” A indústria de artigos e equipamentos médicos e odontológicos trabalha com máquinas de gerações distintas. “Nossos produtos já carregam sistemas embarcados visando a conectividade e a interoperabilidade, mas ainda temos máquinas analógicas, que precisarão ser substituídas ou convertidas para digitais”, afirma Franco Pallamolla, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos (Abimo).

Já a impressão 3D só agora começa a despertar interesse. Guto Drummond, da fabricante TechCD, diz que a procura pela tecnologia mais que dobrou desde o ano passado. A modernização do setor abre vasto campo de oportunidades de negócios. Segundo o superintendente da Abimo, Paulo Henrique Fraccaro, o mercado de equipamentos e artigos médicos e odontológicos movimentou R$ 25 bilhões em 2016 e, com a 4.0, o valor deve subir para R$ 60 bilhões em cinco ou oito anos.

“Importamos 60% dos produtos. Nosso desafio é ampliar a participação da indústria nacional.” A massificação da saúde digital pressupõe grande engajamento do poder público. Em palestra realizada no 6º Congresso de Inovação em Materiais e Equipamentos para Saúde (Cimes), realizado recentemente pela Abimo, o secretário de Inovação e Novos Negócios do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Marcos Vinícius de Souza, anunciou que o governo federal trabalha em três políticas de grande impacto na indústria em geral. Uma delas é a estratégia digital brasileira, que está em consulta pública. As outras são a elaboração de um Plano Nacional de Internet das Coisas e de uma política nacional para a indústria 4.0.”

Souza disse que até o fim de setembro devem sair o decreto de regulamentação do marco legal da inovação e melhorias na Lei do Bem, de incentivo a P&D. Já a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revelou no congresso que anunciará em breve regras para acelerar a importação de materiais de pesquisa. Outro projeto de peso vem da área acadêmica. O Gaesi (Gestão e Automação em TI), da Poli/USP, está criando um sistema de rastreabilidade de remédios em parceria com o Ministério da Saúde e a Anvisa.

Na área de fomento, uma amostra do potencial da saúde vem do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que, em janeiro, ao revisar sua programação de financiamentos, colocou o setor no topo das prioridades. “É a área com mais condições de gerar retorno social”, justifica João Paulo Pieroni, chefe do Departamento do Complexo Industrial e de Serviços da Saúde do BNDES. O banco possui R$ 10,4 bilhões contratados na carteira de saúde, com destaque para projetos de biotecnologia.

Fonte: Valor Online

Veja também